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Diabetes e visão: o exame que não deve adiar

A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira em Portugal e não dá sintomas até ser tarde. Explicamos o que é, quem deve fazer o rastreio e com que frequência.

Medical Óptica3 min de leitura
Detalhe de um exame de fundo do olho, com os vasos da retina visíveis

Quando se fala de diabetes, há um aspeto que costuma ficar de fora da conversa: os olhos. A retinopatia diabética é uma das três principais causas de cegueira irreversível em Portugal — e uma das mais evitáveis.

O que a diabetes faz à retina

A retina é o tecido que reveste o fundo do olho e converte a luz em sinal nervoso. É irrigada por vasos sanguíneos muito finos.

Níveis elevados de glicose no sangue, mantidos ao longo do tempo, danificam as paredes desses vasos. Eles tornam-se permeáveis e começam a deixar escapar líquido e sangue para o tecido da retina. Em fases mais avançadas, o organismo tenta compensar formando vasos novos — mas são frágeis e sangram com facilidade.

Este processo chama-se retinopatia diabética e é silencioso durante anos.

Porque é que não dá sintomas

Esta é a parte que apanha as pessoas desprevenidas.

As primeiras alterações acontecem tipicamente na periferia da retina, longe da zona responsável pela visão central. Uma pessoa pode ter retinopatia já estabelecida e continuar a ler, a conduzir e a trabalhar sem notar nada.

A visão só é afetada quando o problema chega à mácula — a zona central — ou quando ocorre uma hemorragia. Nessa altura, o dano acumulado já é considerável.

Por isso o rastreio não depende de sintomas. Depende do calendário.

Quem deve fazer e quando

  • Diabetes tipo 2: exame no momento do diagnóstico e depois anualmente. Muitas pessoas vivem com diabetes tipo 2 sem saber durante anos, pelo que já pode haver alterações à partida.
  • Diabetes tipo 1: primeiro exame cerca de cinco anos após o diagnóstico e depois anualmente.
  • Gravidez com diabetes prévia: acompanhamento mais próximo, porque a gestação pode acelerar a progressão.
  • Com alterações já detetadas: intervalos mais curtos, conforme indicação médica.

O rastreio da retinopatia diabética existe no Serviço Nacional de Saúde e é gratuito para quem está referenciado. Se tem diabetes e nunca ninguém lhe falou nisso, pergunte na sua unidade de saúde.

Fatores que aumentam o risco

  • Muitos anos de doença
  • Controlo glicémico irregular, com valores altos mantidos
  • Hipertensão arterial
  • Colesterol elevado
  • Tabagismo
  • Doença renal associada

A boa notícia é que quase todos são modificáveis. Um controlo apertado da glicemia e da tensão arterial reduz substancialmente o risco de desenvolver retinopatia e abranda a que já existe.

O que pode aparecer, quando aparece

Sinais que exigem avaliação sem esperar pela consulta anual:

  • Visão turva ou a oscilar ao longo do dia
  • Manchas escuras ou "teias" que aparecem de repente
  • Dificuldade a ler que se instalou em pouco tempo
  • Zonas do campo visual em falta
  • Cores menos vivas
  • Dificuldade acrescida a ver à noite

Nota importante: oscilações de visão ao longo do dia podem também ser efeito direto de variações de glicemia sobre o cristalino, e não retinopatia. Mas isso distingue-se em consulta, não em casa.

O que fazemos numa ótica

O diagnóstico e o tratamento da retinopatia diabética são competência médica. O papel de uma ótica é outro: avaliar a função visual, acompanhar alterações ao longo do tempo e encaminhar para oftalmologia quando encontramos algo que o justifique.

Numa avaliação de rotina de uma pessoa com diabetes damos atenção especial à acuidade visual, a alterações recentes e ao campo visual.

Se tem diabetes e já não faz uma avaliação visual há mais de um ano, marque. É das coisas mais simples que pode fazer pela sua visão a longo prazo.

Perguntas frequentes

Com que frequência deve uma pessoa com diabetes fazer o exame aos olhos?

Pelo menos uma vez por ano, independentemente de ver bem e de a diabetes estar controlada. Se já existirem alterações na retina, o intervalo é encurtado conforme a indicação médica. Na diabetes tipo 2, o exame deve ser feito logo no momento do diagnóstico.

Se a minha diabetes está controlada, posso dispensar o exame?

Não. Um bom controlo reduz muito o risco, mas não o elimina, e a retinopatia pode instalar-se sem que a pessoa dê por isso. O exame anual mantém-se mesmo com valores exemplares — é ele que deteta as alterações numa fase em que ainda há muito a fazer.

A retinopatia diabética tem tratamento?

Tem, e é eficaz quando aplicado a tempo — laser, injeções intraoculares ou cirurgia, conforme o estádio. O que o tratamento faz é travar a progressão e preservar a visão existente. A visão já perdida raramente se recupera, o que explica a insistência na deteção precoce.

Cuide da sua saúde ocular

Uma avaliação visual completa é o primeiro passo para detetar alterações antes de darem sintomas. Marque a sua consulta.